Tecla SAP Dicas de inglês

Artigo: Sabe inglês? Vire intérprete…

17.Oct.2007 · Posted in Artigos, Tradução Simultânea

Ulisses Wehby de Carvalho

Não há como negar que os trabalhos realizados na televisão proporcionam grande visibilidade à tradução simultânea. Já escrevi sobre o tema em dois textos recentemente publicados aqui: “News: Intérprete no ‘Tudo é Possível’” e “Simultânea ou Consecutiva?“. Por outro lado, estas participações podem criar uma imagem de glamour que a profissão não tem, repito, *NÃO TEM*, no dia-a-dia.

Muita gente, principalmente quem fala inglês, pode ficar com a falsa impressão de que ser intérprete é uma maravilha. Alguns minutinhos de trabalho por dia traduzindo uma meia dúzia de frases simples enunciadas por uma pessoa que fala inglês perfeitamente, sem sotaque. E ainda por cima aparecer na TV? Até mesmo de forma inconsciente, tenho certeza de que muita gente pensou: “Pera aí, eu poderia fazer esse troço!”

Não quero subestimar de antemão a capacidade de ninguém. Sei que muitos têm potencial e podem vir a ser excelentes profissionais. Entretanto, é importante conhecer o pacote completo, ou seja, saber qual a profundidade do buraco em que você está pensando em entrar. Não vou reinventar a roda porque a Ângela Levy, minha professora e criadora do Curso de Formação e Intérpretes da Associação Alumni, já fez esse trabalho de maneira brilhante. Leia seu texto “Sabe inglês? Vire tradutor…” que também publiquei aqui no Tecla SAP. Contudo, quero acrescentar mais alguns elementos para reflexão. Portanto, leve em conta as seguintes considerações antes de decidir mudar de profissão porque nem tudo são flores no mundo da simultânea. Há um alto grau de variabilidade e incertezas de vários tipos.

Já traduzi de Presidentes e Primeiros-Ministros a moradores de rua, pessoas que se expressam perfeitamente e outras que simplesmente não conseguem falar em público por timidez, nervosismo ou despreparo. Trabalhei em palácios e hotéis luxuosíssimos mas também em acampamentos dos sem-terra, já estive em salas de reunião confortáveis com controle computadorizado de temperatura e em calderarias, currais, túneis de inspeção de barragens, aterros sanitários etc.

Os temas também são realmente variados: cromatografia de íons, fadiga de metais, planificadoras contínuas, paternalismo no direito penal, arquitetura de redes, uso de células dendríticas para tratamento do câncer, tráfico ilícito de pessoas, integração de VoIP, galvanização, entre muitos outros assuntos emocionantes. Não falo com desdém dessas matérias, muito pelo contrário, devido a seu alto grau de especificidade, demandam horas de estudo e preparo para quem não é especialista da área. Achar que você vai receber farto material com antecedência é outra ilusão.

E o que dizer dos diferentes sotaques? Já traduzi cidadãos cuja língua materna é o inglês: australianos, irlandeses, texanos, escoceses, sul-africanos, indianos etc. além dos que falam inglês como língua estrangeira: chineses, árabes, russos, japoneses, alemães, franceses, argentinos, brasileiros etc. Todos falam variantes bem democráticas da língua inglesa e raramente se entendem, mesmo falando um idioma comum. Os “estrangeiros”, evidentemente, possuem diferentes graus de domínio do idioma. Por exemplo, um biólogo coreano especialista em tratamento de águas servidas, pode ser um cientista brilhante mas um asno do ponto de vista lingüístico.

É imperativo desmistificar outra área também repleta de devaneios: o “salário” do intérprete. Ao saberem qual é o valor de uma jornada de trabalho, muitas pessoas multiplicam essa diária por 30 e chegam à conclusão, afoita, é óbvio, de que somos todos milionários. Escrevi salário entre aspas porque os intérpretes são, em quase sua totalidade, autônomos e, portanto, auferem renda variável. E bota variável nisso! Recentemente, fiquei 43 dias em casa sem trabalho! Justo eu, intérprete com mais de 15 anos de experiência, autor de três livros, com duas entrevistas no Jô, blablablá. E olha que não estou falando das férias escolares, Natal, Carnaval etc., épocas normalmente de estiagem. Deixo bem claro que não estou choramingando nem reclamando da vida. Sinto-me um privilegiado por fazer o que gosto e por ter tido sucesso profissional ao longo de minha carreira. Só não posso me calar e deixar que muita gente crie uma fantasia para depois se frustrar na hora em que constatar que a realidade é bem diferente.

Em suma, quem não estiver preparado para encarar a montanha russa, no escuro, sem cinto de segurança e depois da feijoada nem deve passar perto de uma cabine de tradução simultânea.

Espero que você tenha compreendido que a simultânea é algo diferente daquilo que acontece na transmissão do Oscar ou nos outros programas de TV e, de quebra, tenha conseguido reunir subsídios para tomar uma decisão mais consciente sobre a escolha de sua profissão. Em tempo, o careca da foto não sou eu!

Cf. Artigo: Sabe inglês? Vire tradutor…

O autor
Ulisses Wehby de Carvalho é intérprete de conferência, membro da APIC – Associação Profissional de Intérpretes de Conferência e da TAALS – The American Association of Language Specialists . Veja CV completo.

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    30 comentários sobre “Artigo: Sabe inglês? Vire intérprete…”

    1. juliana leite says:

      Show!

      Gostei da sua sincera descrição sobre a profissão!!

      Agora,me perdoe o melhor do texto foi: “Em suma, quem não estiver preparado para encarar a montanha russa, no escuro, sem cinto de segurança e depois da feijoada nem deve passar perto de uma cabine de tradução simultânea.”

      UAHAUAHAUAHAUAHAUAHAUAHAUAH..Adorei!:)

      É…é o glamour,a ilusão e a falsa visão da realidade que a nossa querida (ou odiada) TV trás para as nossas vidas!

      Ou coitada,nem é ela…somos nós mesmos que nos iludimos…=/

      Mas eu quando fui num congresso da minha profissão e ví o povo traduzindo tudo achei BÁRBARO,mas também confesso que eles faziam o que vc disse: sabiam tudo antes pra ter uma NOÇÃO do assunto. Ledo engano!!

      Gostei muito do artigo…estou indo ler os outros…;)

      XXOO

    2. Ulisses Wehby de Carvalho says:

      Juliana,

      Obrigado pelas palavras gentis em seu comentário.

      Quando afirmei que não recebemos o material do cliente com antecedência não quis dizer que não nos preparamos para o evento. Minha intenção foi deixar claro que nem sempre o discurso vem bonitinho nem o arquivo em PowerPoint é enviado 1 semana antes. A preparação é, muitas vezes, na raça mesmo, ou seja, com Internet, livros, enciclopédias etc.

      Abraços a todos

    3. O texto está bom, mas só uma crítica: Faltou um pouco de coerência no registro. Por exemplo, em um mesmo parágrafo, você misturou palavras e expressões que não fazem parte de um vocabulário quotidiano e outras muito informais (“É imperativo desmistificar outra área também repleta de devaneios”, “…auferem renda variável”, “blablablá”, “E bota variável nisso!”, “Não estou choramingando…”).

    4. Ulisses Wehby de Carvalho says:

      Caro(a) Anônimo(a),

      Obrigado pelos comentários. Usei propositalmente palavras pouco comuns como “auferir” e “devaneio” porque acredito que um texto pode – e deve! – ajudar a enriquecer o vocabulário dos leitores. Em momento algum usei palavras ou estruturas obsoletas para demonstrar cultura livresca.

      Com sua vênia, rogo encarecidamente que apense sua firma às mucandas porvindouras.

      Amplexos a todos

    5. Raul F. B. Nogueira says:

      O texto foi perfeito!!! De fato não foram palavras obsoletas tampouco inacessíveis e o coloquialismo foi perfeito para dexar um assunto tenso, menos tenso… Esse cara com certeza só falou por falar.
      Tenho dezesseis anos e juro que tenho pensado muito na profissão de intérprete, textos bem escritos, claros e diretos como o seu, ajudam-nos a pesar os pontos positivos e negativos de todas as profissões pensadas por pré-vestibulandos. Obrigado.

    6. Ulisses says:

      Raul,

      Obrigado pela participação no blog. Volte sempre!

      Abraços a todos

    7. oi,,,mt bom o texto,,,eu sou um vestibulando desesperado,,,

      eu estou mt em duvida,,,eu quero fazer traduçao,,,mais voce sabe né…to com aquele pé atraz de vestibulando,,,gostaria mt que voce pudesse me ajudar,,,vou deixar meu email,,,se pudesse me retorna me explicando melhjor como funciona essa vida e a jornada ate ser um bom tradutor e o salaria e etx fikarei mtmtmt grato,,,

      voce esta de parabens,,,vlw,,,abraçao

      malokeiro-skateboard@hotmail.com

    8. Ulisses says:

      Felcio,

      Obrigado pela participação no blog. Recomendo a releitura atenta do texto porque as mesmas perguntas que você me faz no comentário já foram respondidas.

      Se você está “com o pé atrás de vestibulando”, tenho certeza de que você não está sozinho. São poucas as pessoas que têm certeza absoluta do que querem fazer.

      Abraços a todos

    9. Augusto Azevedo says:

      Caro Ulisses,

      Primeiro de tudo gostaria de dizer que lamento que só descobri o seu trabalho há pouco tempo. Bem, antes tarde do que nunca. Tenho um bom nível de inglês, gosto de escrever e sou formado em letras inglêses/francês/espanhol. Porém, não tenho aquela fluência absoluta, digamos assim.
      Tenho 38 anos e pensei em concretizar a seguinte estratégia. Passar uma boa temporada no Canadá para de fato aperfeiçoar o inglês; qdo voltar fazer o curso da Alumni e dedicar-me as traduções/versões de livros/artigos.
      levando-se em conta a instabilidade da carreira, não vou abandonar meu trabalho de professor de inglês (estado)
      Apenas explicando melhor meu contexto, moro em mato Grosso e nossa realidade é um pouco difícil em termos de oportunidades e sobretudo de aperfeiçoamento.
      Vc acha que com essa qualificação ficarei apto a pleitear trabalhos nos grandes centros?

      Gostaria muito de receber uma resposta sua,

      Abraços,

      Augusto

    10. Ulisses says:

      Augusto,

      Tudo bem? Parece-me uma boa estratégia. No entanto, tome cuidado com a idéia de que basta morar no exterior para aperfeiçoar os conhecimentos do idioma. Essa dedução só é válida se você não interagir demasiadamente com brasileiros e/ou estrangeiros de outras nacionalidades. Já morei no exterior e sei que não é fácil conviver primordialmente com os “locais”.

      Além disso, uma boa qualificação profissional é apenas o primeiro passo para se estabelecer no mercado. Há outros tão ou mais importantes em sua trajetória: sua competência tradutória individual, seus habilidades comerciais (fazer contato, conquistar e manter clientes etc.), as condições econômicas do país etc.

      Abraços a todos

    11. Caramba…. se tinha dúvidas, acabei de desistir! Esse treco parece difícil mesmo! Me deu até enjôo! : ))

    12. Fabiana,

      Pois é, não é mesmo tarefa para as pessoas que não possuem identificação com a carreira. Nem todos se realizam na cabine de simultânea, assim como medicina não é para todo mundo, engenharia, direito, gastronomia, tecnologia etc.

      Obrigado pela participação.

      Abraços a todos

    13. Oi Ulisses…
      Entao, adorei o artigo…
      Eu quero ser interprete tambem, e estou estudando e me esforçando pra isso! Se eu antes sabia que nao era facil, depois do seu artigo essa certeza so aumentou… Enfim… se é o que eu amo, se é o que eu gosto de fazer… tenho que tentar mesmo sabendo que é dificil!
      Agora é batalhar por isso e dar o melhor de mim!
      Parabens pelo blog… é muito legal!
      Abraços!
      Dana

    14. Dana,

      Obrigado pelo comentário. Concordo plenamente com todas as suas observações. Seja bem-vinda ao clube!

      Abraços a todos

    15. Estudei uns 6 anos de inglês (obrigada) quando era adolescente e não aproveitei nada. Assim… Nada é um pouco de mais, o vocabulário sempre fica.
      Mas voltei a estudar e me formo no ano que vem (curso de inglês em escola de línguas).
      Hoje, dou aula de inglês como voluntária.
      Acho legal ajudar quem não tem condições.
      Uma pena, ter descoberto este site a pouco tempo.
      Não quero ser intérprete como você… trabalhar com isso mesmo sabe…
      Mas sempre que vem estrangeiros pra cá, para fazerem trabalhos sociais, eu ajudo com o pouco conhecimento que tenho. Vou me aperfeiçoar porque acho que devo mesmo. Tem um versículo bíblico que diz: tudo quando fizer, faça como se fosse para Deus. Deus merece o melhor, portanto devo fazer o trabalho com excelência.
      Saiba que você me ajuda “bastante” com os posts.
      Whatever… Valeu, mesmo.
      God bless you!
      ;)

    16. Juliana,

      Obrigado pela visita e pelo comentário. Volte sempre! Fico contente em saber que as dicas ajudam bastante.

      Abraços a todos

    17. [...] Artigo: Sabe inglês? Vire intérprete… A autora Ângela Levy é tradutora/intérprete, criadora do Curso de Formação de Tradutores e [...]

    18. [...] Artigo: Sabe inglês? Vire tradutor… Cf. Artigo: Sabe inglês? Vire intérprete… Cf. Ainda sobre [...]

    19. [...] Artigo: Sabe inglês? Vire intérprete… Cf. Simultânea ou Consecutiva? Cf. Artigo: Como arranjar trabalho (de tradução [...]

    20. [...] ser folgado (p. 95), sou obrigado a verter para a língua inglesa palavras como essas na cabine de interpretação simultânea. Não é raro eu me deparar com, entre outras, concurso público (p. 53), despachante (p. 66), [...]

    21. Trabalhei como interprete durante 2 dias, e como nao sabia o assunto a ser tratado e as pessoas envolvidas, estou me arrependendo ate agora o pq aceitei, foi muito dificil para eu, que nao domino termos tecnicos e muito chato para as pessoas envolvidas pq se criou uma relacao um pouco tensa em uma reuniao de negocios, com certeza nao digo "jamais" farei isso novamente, mas com certeza vou querer saber todos os detalhes da reuniao, assunto a ser tratado e pessoas envolvidas.

      • Anonimo,

        Obrigado pelo depoimento. Parece-me que você não aprendeu a lição mesmo depois de ter passado pela experiência negativa. Supor que saber "todos os detalhes da reunião" (como se isso fosse possível!), assunto a ser tratado (como se as reuniões se resumissem a apenas um assunto!) e pessoas envolvidas é de uma ingenuidade ímpar. Tudo o que você acha essencial é apenas uma mísera parcela do todo! O que é mais preocupante é que sua postura reflete o sentimento geral de que qualquer pessoa sem preparo pode "virar intérprete" do nada. Que tal fazer um curso???? Que tal se preparar como um profissional de verdade???

        Abraços a todos

    22. Está matéria esta otima, me fez decidir seguir enfrente, , mas com amor ao trabalho e com dispocisão pode-se ter uma boa base de sustento.
      me chamou atenção a parte que você disse que interprete é autonomo, e isso quer dizer que quem faz meu “salario” sou eu com minha dedicação e conciencia de que nem tudo são flores

    23. Adorei ter lido o blog do professor, cujos artigos são bem escritos e argumentados. Tenho certeza que também vou adorar ler suas obras. Sabendo da sua experiência linguistica, gostaria de saber quais são as obras que temos à leitura na área de Interpretação Simultânea. Quais das obras sugeridas é a que o professor tem ou teve como a mais fundamental à profissionalização de seu maravilhoso trabalho desde quando o iniciou. Ressalto-lhe que sei a importância de seu trabalho e, infelizmente, é fato que o interprete passa pela seguinte injustiça: se não fôr lembrado após a conferência é sinal positivo; caso contrário, este é alvo de críticas negativas, as quais são ditas, principalmente, por ignorantes no assunto. Desde já o meu muito obrigado.

      • Ivan,

        Obrigado pelo comentário. Não escrevi livros sobre simultânea. Infelizmente, não há obras de referência em português sobre o tema. Leia as obras dos Professores Daniel Gile e James Nolan. Observe, no entanto, que por mais importante que seja o trabalho de pesquisa acadêmica em interpretação de conferência, ele não pode ser encarado como substituto da experiência prática adquirida nos cursos profissionalizantes.

        Abraços a todos

    24. Thanx for not sugarcoating the subject but I still want to follow on that career.
      Great blog, by the way.
      Sincerely,
      LG.

      • LG,

        Obrigado pelo comentário. O intuito é justamente esse, ou seja, fazer com que as decisões sejam tomadas com um pouco mais de noção da realidade.

        Abraços a todos

    25. Mais uma vez agradeço o professor pela orientação. Comecei ler hoje (11/11/09)sobre ambos autores. Estou tomando conhecimento e selecionando os artigos publicados de acordo com o que preciso para posteriormente lê-los profundamente.

    26. mito foda,poarabeins

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