Quanto devo cobrar para fazer simultânea? Detalhe: não sou intérprete!

Tempo de leitura: menos de 1 minuto

Ulisses Wehby de Carvalho

Já escrevi vários textos sobre tradução simultânea aqui no Tecla SAP. Vários deles têm o intuito de desfazer a falsa impressão de que basta ser bilíngue para ser intérprete. Dentre eles, destaco “Tradução Simultânea não se aprende com dicas” e “Tradução Simultânea – Ano novo, carreira nova“.

Mas não tem jeito, vira e mexe aparece alguém com um pedido como este abaixo:

Preciso que me ajude urgentemente!!!!! Sou professora de inglês em uma cidade pequena, sou formada em Letras, mas nunca trabalhei como intérprete nem como tradutora. Uma empresa me convidou para recepcionar um grupo de americanos. Não tenho ideia de valores, será que pode me socorrer???

Recebi autorização do colega Walter Estella, intérprete de conferência profissional, para publicar no Tecla SAP a resposta padrão que ele dá a quem lhe faz perguntas semelhantes. Quando perguntam a ele quanto se deve cobrar para fazer simultânea, este é o diálogo que costuma acontecer:

– Olha, me pediram para fazer tradução simultânea em um evento, mas eu não tenho experiência. Quanto devo cobrar?

– Fez curso de interpretação?

– Não.

– Então não cobre nada!

– Como assim? Vou trabalhar de graça?

– É claro! Se você não é profissional e vai quebrar galho, o serviço tem que ser de graça.

Cf. Como se diz “quebrar o galho” em inglês?

A resposta pode até parecer um tanto áspera a princípio, mas perguntas dessa natureza são um insulto para quem é profissional. Elas, infelizmente, comprovam que até mesmo quem tem conhecimento de uma língua estrangeira, e por isso mesmo deveria ter um pouco mais de noção sobre a dificuldade de se fazer tradução simultânea, acaba se iludindo a ponto de achar que, sem preparo nenhum, pode desempenhar um serviço tão técnico.

acidente de carro

Cf. Como eu digo “se toca” em inglês?

Se você se interessa pela profissão, prepare-se e vá em frente! Não é assim com as outras profissões? Ou você entraria em um carro com um “motorista” de primeira viagem e ainda por cima sem habilitação? Por que seria diferente com a interpretação simultânea? Há cursos universitários em diversas capitais brasileiras e alguns profissionalizantes, em geral com dois anos de duração, como o Curso de Formação de Tradutores e Intérpretes, da Associação Alumni, em São Paulo.

Para conhecer um pouco mais sobre este mercado, clique na tag “tradução simultânea” e leia os, até agora, 46 textos sobre o assunto. Talvez essa não seja a resposta que a consulente estava esperando, mas ninguém pode dizer que eu não tentei ajudar!

Cf. Como arranjar trabalho (de tradução simultânea)?
Cf. Sabe inglês? Vire intérprete…
Cf. Tradução Simultânea Profissional x Quebra-galho
Cf. Indicações profissionais: Panelinha ou bom senso?

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Rickson Lira
Rickson Lira
4 anos atrás

De graça nada. Trabalho é trabalho. Se só tem ela que possa fazer naquela hora, ela tem que receber. Tá errado isso.

Rafael
Rafael
7 anos atrás

Tanto blablabla, e nenhum valor sugerido! É por isso que sitem assim desaparecem, nem ao menos uma pergunta simples conseguem responder. Traduz ae: you suck!

cristina carvalho
cristina carvalho
7 anos atrás

Boa troca de ideias. E apesar das controvérsias, manteve-se a discussão em nível respeitoso. Tenho licenciatura plena em Português/Inglês e sou apaixonada por tradução literária. Mas não ousaria trabalhar com tradução simultânea. É um campo super hiper mega específico…rs para o qual não tenho formação nem experiência.

Rodrigo
Rodrigo
9 anos atrás

Na minha opinião nenhum trabalho deve ser de graça. Conheço muitas pessoas que nem sequer fizeram curso de interpretação simultânea e possuem tal competência para realizá-la. Arriscar as vezes dá certo!

Ricardo
Ricardo
9 anos atrás

É complicado isso. Eu, por exemplo, moro numa cidade grande, mas longe de São Paulo e outras cidades onde há cursos profissionalizantes. Tenho um emprego como prof de inglês e procuro oportunidades como intérprete, mas sou casado e não tenho como deixar minha cidade e meu emprego p’ra ficar 1 ano ou mais em SP p’ra fazer o curso (pelo menos no momento), e nem achei ainda esse curso online. Então, só vou poder começar a me arriscar quando resolver tudo isto?! Claro que não, vou começar mesmo sem o curso e não acho que meu conhecimento (mesmo não se comparando a quem faz o curso) tão inferior a ponto de não cobrar nada. Achei um pouco exagerado recomendar fazer de graça.

a moça do e mail
a moça do e mail
9 anos atrás

Bom, eu acho que a moça do e mail precisa se defender…
O que eu acho que aconteceu, foi um mal entendido.
A princípio, tenho sim formação acadêmica, sou formada em Letras – Licenciatura Português/Inglês e Pós graduada em Língua Inglesa,ministro aulas de Inglês em duas escolas conhecidas da área há aproximadamente 6 anos e sei que tenho muito, ainda, a aprender.
Sou admiradora confessa do trabalho do Ulisses e acompanho frequentemente o seu blog, mas não imaginava que o meu e mail viraria tópico aqui.
Enfim, fui realmente convidada a RECEPCIONAR alguns convidados americanos em uma festa de casamento em minha cidade, porém desde o meu primeiro contato com a empresa deixei bem claro que não fazia traduções simultâneas já que essa não é minha formação, e até indicaria outra pessoa. Mas o que eles queriam, na verdade, era alguém que explicasse como a cerimônia religiosa seria conduzida, em que momento eles deveriam entrar na igreja, em que lado se sentariam, coisas de cerimônias religiosas. Já durante a festa, é óbvio, eles não precisariam de ajuda alguma, a não ser para localizar o banheiro. Fala sério, quem vai querer, durante uma festa, uma babá, o tempo todo te explicando o que acontece, ou o que vc deve ou não fazer, ou seja, meu papel, foi, apenas, explicar passos de uma tradição. Em momento algum fiz uso de tradução simultânea, que realmente não é a minha praia e jamais pretendi faze-la como tal. Tenho plena consciência das minhas obrigações e habilidades como PROFESSORA, jamais desejei ofender classe alguma,e sempre soube que a partir do momento que assumimos responsabilidades devemos ser cientes de nossas capacidades e como usa-las, especialmente se a minha carreira depender desta responsabilidade que consequentemente projetará minha imagem.
Talvez eu não tenha me expressado como deveria em tal e mail, dando oportunidade a entendimentos diversos, mas deixei bem claro que fui convidada a RECEPCIONAR e jamais TRADUZIR conferência ou algo parecido.
Tudo foi um sucesso, a comunicação não teria como ocorrer de maneira mais natural, afinal foi pra isso que fui contratada: para me comunicar com um grupo que não falava a nossa língua, e em momento algum, agi como tradutora, pois sei que esta função não compete a mim, pois se assim fosse teria estudado para tal.
Mas de qqer forma fiquei muito grata pelas dicas e consideração do consultor e demais.

Karine
Karine
9 anos atrás

Parabéns pela humildade que muitos “profissionais” não possuem!

Li seu e-mail no tópico acima e compreendi perfeitamente sua dúvida, simples de ser respondida. É uma lástima que algumas pessoas não tenham aptidão em interpretação de textos, até mesmo em “PORTUGUÊS”. Além disto, achei uma falta de educação a resposta que lhe foi dada. Não havia necessidade de tanta ignorância por parte de Ulisses.

Deixei de seguir “TeclaSap” neste momento. Há muito material de ótima qualidade em OUTROS sites na internet.

Ulisses: não adianta realizar um ótimo trabalho se ele é desvalorizado por sua arrogância!

Vanessa
Vanessa
7 anos atrás
Reply to  Karine

Concordo plenamente, Karine.
Sendo este um site referenciado por um grande buscador como o Google, o idealizador deste poderia ao menos manter a ética e a postura ao responder a uma dúvida sincera e totalmente compreensível de uma leitora.
Também deixo de acompanhar este site desde já.

Elisabete
Elisabete
9 anos atrás

Sou licenciada em Letras, tradutora e intérprete formada pela Alumni. Não concordo com o comentário de que pessoas não preparadas “roubam” alunos de pessoas preparadas e formadas para darem aulas de inglês. Acho que há espaço para todo mundo trabalhar, cada um pode ter contribuições diferentes a oferecer. O profissional preparado e seguro não tem por que temer a concorrência, principalmente se considera a concorrência despreparada e sem formação.

Tradução e interpretação são trabalhos técnicos que requerem diversas habilidades além do conhecimento das línguas envolvidas. Quem sou eu para avaliar o que o outro é capaz de fazer? Já vi pessoas não formadas em tradução e interpretação, com conhecimentos razoáveis das línguas, realizarem excelentes trabalhos nesse campo.

Valorizar a profissão é importante, mas elitizá-la e coporativizá-la me parece descabido. It’s not brain surgery, you know?

Fábio
Fábio
9 anos atrás

Navegando pela net, encontrei esse texto, por acaso, e resolvi deixar uma opinião.

Não acho certo trabalhar “de graça”. Isso sim, tende a desvalorizar uma profissão.

O certo é não pegar um serviço que não seja da sua “ossada”. Simples, assim.

A questão não é a discussão “formação profissional x prática”, mas, trabalhar “de graça”, deixará o(s) cliente(s) acostumado(s) com “favores”.

Trabalho é trabalho.

No caso da moça mostrada no texto, o certo é ela indicar outro(a) profissional e/ou assumir que não tem capacidade para tal coisa.

Diego
Diego
9 anos atrás

Olá, Ulisses,

Fiquei impressionado com seu blog e seus textos e confesso que FINALMENTE achei uma ótima resposta para dar.

Trabalho com tradução midiática, ou seja, legendas para filmes e constantemente me deparo com traduções de pessoas que não têm nem “formação acadêmica” nem “formação prática”, mas que moraram “fora”.

Eu tenho os dois, pois sou formado e licenciado em Letras pela USP, formado como tradutor intérprete pela PUC-SP, fiz cursos de tradução midiática na GEMINI Media, morei 8 anos em Nova York e, ainda assim, acho que fiz pouco e tenho muito o que aprender.

É preciso muita cara de pau para assumir a responsabilidade com um cliente sem ter a capacitação para tanto, isso é irresponsabilidade e enganação, o que só desvaloriza o nosso trabalho e nos prejudica diretamente.

Guardadas as devidas proporções – é claro – mas quem aceitaria ser operado por uma pessoa sem formação, mas que trabalhou por 1 ano dentro de uma sala de operações como instrumentador, acompanhou vários procedimentos e agora decidiu abrir uma clínica?

Enfim, obrigado.

Rômulo Faria
9 anos atrás

Gostei do texto e concordo plenamente com a resposta do Walter Estella.

Esse caso é semelhante ao das pessoas que passam um ano nos EUA, voltam para o Brasil desempregadas, têm dificuldade de arrumar emprego e, enquanto isso, dão aulas de inglês pra “arrumar uns trocados”. São pessoas que aceitam ganhar qualquer valor por aula dada, e “roubam” alunos de escolas e/ou professores particulares, que estudaram para seguir tal carreira.

Já passei inúmeras vezes pela situação de uma pessoa me perguntar quanto cobro por aulas particulares e, após dizer o valor, a pessoa dizer: “mas eu conheço um fulano que passou um ano na Austrália e cobra 10 reais”. Minha resposta é: “Vá fazer aula com ele então e, depois que tiver percebido o desperdício de tempo e dinheiro, me procure”..

Grande abraço Ulisses!!!

Rômulo Faria

Weber Feu
Weber Feu
9 anos atrás

Eu não concordo com essa idéia de que a pessoa precisa fazer um curso para ser profissional na área. Me explico melhor, não é todo profissional que precisa de um curso e nem é todo que faz o curso que se torna profissional. Sou físico e vejo para todos os lados Conselhos que reservam as vagas só para os que são filiados a eles enquanto outros profissionais poderiam executar aquela mesma tarefa. Um exemplo disso são os concursos cujas vagas eram preenchidas, em sua maioria, por físicos e que agora são abertos só pra quem tem diploma em outras áreas. Mas também não defendo uma prática que está se tornando cada vez mais comum, a do sujeito que passa 6 meses nos EUA e já volta como “professor” de inglês.

Wellington
Wellington
9 anos atrás

Isso que é interessante, debate e opiniões. E ainda sou contrário aos comentários, mas sem argumentos para “tentar não causar polemicas”.

Sucesso.

Abs,

André
André
9 anos atrás

Menos, Ulisses. Bem menos.

Amo o Tecla Sap mas achei o tópico totalmente desnecessário. Tampouco polêmico.

Elisa
Elisa
9 anos atrás

Concordo com o Ulisses, uma coisa é saber uma língua estrangeira, ser fluente, outra coisa é ter formação para ensinar/ traduzir/ interpretar essa língua.

Eliane
Eliane
9 anos atrás
Reply to  Elisa

Achei esse post muito válido, concordo com o autor. Também sou formada em Letras , tenho experiência com o ensino da língua inglesa e estou morando e estudando nos EUA exatamente para aprimorar meus conhecimentos liguísticos e poder chegar a ter um domínio de fato sobre esse segundo idioma ( O que reaquer esforço). Bom, quero apenas acrescentar que se desejas ser valorizado profissionalmente, é preciso autocrítica ,se fazer valer com experiência e conhecimento.

Wellington
Wellington
9 anos atrás

Sinceramente eu não concordo em NÃO cobrar nada. Os exemplos a seguir podem ser variados, mas é a mesma idéia de uma pessoa que não é formado:
Ex1: Tenho uma amiga que morou 4 anos nos EUA e hoje trabalha como intérprete e dá aulas particulares e detalhe, ela se formou em Nutrição. Ela não tem cursos como mencionado, mas a possui experiencia que não seria adquirida em qualquer curso.

Ex2: Um fotógrafo (de casamento mesmo) é contratado pelo portfolio, pela experiencia que tem em fotografar. Ou voce contrataria uma pessoa que acabou de se formar e não tem experiencia ou uma profissional que não é formado mas tem 10 anos de experiencia?

Fato: ninguém contrata um serviço de graça pois sabe que pode não ter qualidade.

Acho muito distinto isso de não cobrar nada, se voce tem conhecimento ou ao menos capacidade mínima para tal tem que valorizar o seu conteúdo e como a questão levantada é de uma pessoa, inclusive, formada em Letras e dá aula deveria sim cobrar.

Bom, foi minha opinião.

Sucesso com o blog.

Abs,