A crase

Tempo de leitura: menos de 1 minuto

Emílio Pacheco

Às vezes penso em cursar a faculdade de Letras só para ensinar crase. Não entendo que tanta dificuldade as pessoas têm em saber se um “a” tem crase ou não. Tá, também não vou dizer que seja tão fácil assim e que eu também não me atrapalhe às vezes. Mas as confusões que vejo por aí também não se justificam. Recentemente vi uma consulta na Internet. Um jornalista queria saber se “entrega de prêmio a jornalistas” tinha crase e justificava pelo fato de a palavra “jornalista” poder ser feminina. Ora, é claro que se fossem todas jornalistas mulheres, o certo seria “às jornalistas”, no plural.

Acho que o método de ensinar é que deveria ser revisto. Ficar decorando regrinhas não leva a nada. O aluno aprende a recitar os macetes na ponta da língua e continua errando na prática. A regra é uma só: ocorre crase quando houver a junção da preposição “a” com os artigos femininos “a” ou “as” ou com os pronomes demonstrativos a, as, aquele, aquela, aquilo, aquiloutro, aqueloutro. Pronto! Quem conseguir entender isso não precisará decorar mais nada, não cometerá erros e sentirá a crase até quando fala.

Talvez uma das noções mais errôneas seja a de que a crase é um acento. Já ouvi muita gente dizer que tal nome ou palavra francesa “tem crase”. Não! Aquele acento virado para a esquerda se chama, por padrão, “acento grave”. Até a Reforma Ortográfica de 1971 (que entrou em vigor em 1972), era usado em português em palavras como “pràticamente”, “matemàticamente”, “sòzinho”, enfim, palavras derivadas de outras que contivessem acento agudo (que é o virado para a direita, ainda hoje usado). Com a nova ortografia, restou ao acento grave em português apenas a função de indicar crase. Com isso, alguns desavisados pensam que crase é o nome do acento. E a tratam como uma mera questão de ortografia da palavra “a”, sem realmente entender o fenômeno.

Lembro de uma prova sobre crase que fiz no segundo grau. Além de dizer se uma frase tinha crase ou não, precisávamos citar a regra. Que bobagem! Lembro que apareceu a expressão “passo a passo”. Respondi que não havia crase porque inexistia o artigo “a” para fazer contração com a preposição. Essa é a única regra válida que conheço. Mas a professora considerou a resposta errada, porque eu teria que ter escrito: “Não há crase entre palavras repetidas”. Ah, sim. Senão, vejamos:

Fui a pé da minha casa à casa do meu amigo.

Então? Essa frase é o pega-ratão perfeito para embananar o pobre decorador de regrinhas. Com um pouquinho de teimosia, consegui colocar uma crase válida entre palavras repetidas. Claro que a repetição da palavra “casa” é desnecessária. Vamos experimentar tirá-la para ver o que acontece:

Fui a pé da minha casa à do meu amigo.

Agora o decorador de regrinhas não entende mais nada, pois ele sempre soube dizer de cor a quem perguntasse que não há crase antes de palavras masculinas. Ele não enxerga nenhuma palavra feminina depois do “à” e jura pela Dona Matilde, a sua saudosa professora do primário, que essa frase não deveria ter crase.

Mais importante do que decorar os pecados da crase e outros macetes é saber a regência de verbos e substantivos. Especificamente, quais verbos são sucedidos pela preposição “a” e quais substantivos são antecedidos pelo artigo “a”. Por exemplo: assistir, no sentido de olhar, pede a preposição “a”. Assiste-se “a” alguma coisa. Já a palavra “luta” é antecedida do artigo “a”. Assistir a + a luta = assistir à luta. Verbo ir: vai-se “a” algum lugar. Cuba: não tem artigo (não se diz “a” Cuba ou “o” Cuba). Ir a + Cuba = ir a Cuba. É tão fácil e, no entanto, ainda há quem faça da crase um mero ornamento da palavra “a”.

É curioso que, em espanhol, não existe crase. Em português dizemos: “Vou à farmácia”. Em espanhol é “Yo voy a la farmacia”. Nenhum nativo de língua espanhola fica em dúvida se deve escrever “a la” ou apenas “a” ou “la”, então por que essa dificuldade dos brasileiros com a crase? Porque a encaram como um acento, ficam decorando regrinhas e não se preocupam realmente em entendê-la.

Referência: Blog do Emilio Pacheco

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12 Comentários
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Marcelo Costa
9 anos atrás

Super bacana o recurso didático descontraido que usa para tornar fácil o entendimento do que está sendo discutido. Muito boa explicação, parabéns!

Jacque Isa
9 anos atrás

legallll

talkstation (Talk Station)
RaphaelTMZ (Raphael Tomaz )
awaker_yuu (Yuu Awaker )
10 anos atrás
Djalma
Djalma
11 anos atrás

Aproveitando o texto, é válido lembrar que o verbo “Lembrar” é TD, ou seja, pede OD e, “Lembrar-se” é TI e pede OI. Ressalto isto pelo parágrafo que se inicia com “Lembro de uma prova”. Não deveria ser: “Lembro-me de uma prova” ou “Lembro uma prova”?

Marie
Marie
11 anos atrás

Eu simplesmente adorei esse texto. Faz muito sentido.

Luis
Luis
12 anos atrás

O mais irritante é viajar pelas estradas e ver a quantidade de placas indicando coisas como "Obras à 500 metros". Minha vontade é de parar de placa em placa e corrigí-las.

JR
JR
12 anos atrás

recre

Ana Luiza
Ana Luiza
13 anos atrás

Acredito que o problema da crase para os brasileiros vem da conversa informal e da substituição da crase pelo “no”, “na”, “pra”, tornando o “à” um estranhamento na sentença.