Bola de ouro da FIFA e a tradução simultânea

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Ulisses Wehby de Carvalho

Bola de Ouro

Você já ouviu falar de tradução simultânea? E do prêmio Bola de Ouro da FIFA, às vezes grafado em francês mesmo, Ballon D’or? Muito provavelmente você já deve ter assistido à transmissão ao vivo de alguma premiação na TV com tradução simultânea. Pode ter sido o Oscar, o Grammy, o VMA ou a própria cerimônia de entrega da Bola de Ouro da FIFA, o prêmio concedido ao melhor jogador de futebol do ano. Só para relembrar, na tradução simultânea não dá tempo de abrir dicionário, consultar o Google nem tirar dúvida com um amigo. O trabalho já é complicado por natureza e não precisamos de nenhum problema técnico para complicar as coisas. Mas não é bem assim que acontece. Vamos por partes…

bola de ouro

A transmissão de cada uma das cerimônias citadas acima apresenta seus desafios particulares, mas este texto tem o propósito de elucidar algumas noções equivocadas sobre uma delas em particular: a de entrega do prêmio Bola de Ouro da FIFA, transmissão que já tive a oportunidade de traduzir por mais de uma emissora de televisão durante a minha carreira como intérprete de conferência. A última delas foi em 12 de janeiro de 2015, pela ESPN.

ATTENTION SPLIT

Antes de tratar do tema em si, acho importante explicar resumidamente como funciona o cérebro do intérprete quando está em trabalho de tradução simultânea. Attention split, ou “divisão de atenção”, é o termo que utilizamos para descrever a divisão do foco da atenção entre o idioma de origem (source language) e o de chegada (target language).

Tomemos, primeiro, o exemplo mais corriqueiro no Brasil, ou seja, tradução simultânea do inglês para o português. Vamos supor que o orador fala em seu idioma materno, é conhecedor do tema e está acostumado a falar em público. Além disso, discorre sobre tema genérico sem se aprofundar em minúcias técnicas. Logo, a divisão da atenção poderia ser a seguinte:

bola de ouro

Em outras palavras, o intérprete divide seu foco de atenção igualmente: parte na compreensão do original, parte na produção do texto traduzido. É evidente que a divisão de atenção não é estática e varia bastante durante um evento ou uma apresentação.

Agora vamos complicar um pouco mais as coisas. Você pode escolher um dos agravantes da lista a seguir isoladamente ou qualquer combinação entre eles. Imaginemos que o orador:

  • não tem o inglês como idioma materno
  • não fala inglês muito bem e tem sotaque carregado
  • não está acostumado a falar em público
  • afasta o microfone da boca com frequência (por nervosismo ou por falta de prática)
  • não domina o tema sobre o qual fala
  • não tem tempo suficiente para apresentar todos os slides
  • está muito nervoso por todas as razões anteriores

bola de ouro

Nesses casos, não há dúvidas de quase todo o foco da atenção está na tentativa de decodificação do discurso de origem. É nessas circunstâncias, portanto, que podem ocorrer eventuais tropeços na língua portuguesa. Esses deslizes podem ser cometidos até mesmo por brasileiros que possuem domínio de seu idioma materno. Não explica, mas justifica.

Há casos, é claro, em que foco pode ser maior na produção tradutória. Se o orador fala pausadamente, sobre um tema que o intérprete domina, não há problemas de áudio de nenhuma ordem etc. Não há razão, nessas situações, para que concentremos tanta atenção na compreensão do texto original e assim podemos nos dedicar a produzir um texto mais bem elaborado em português. É raro, mas acontece. 😉

Eventos com mais de dois idiomas

A coisa começa a complicar um pouco quando trabalhamos em eventos com mais de um idioma estrangeiro, como na entrega do prêmio Bola de Ouro da FIFA. Entra em cena a figura do relay (de relay races, provas de revezamento), ou seja, um intérprete faz sua tradução a partir da tradução de um colega. Os gráficos mais uma vez nos ajudam a entender o processo com mais facilidade.

Vejamos a situação 1, bastante frequente em premiações, em que o orador fala inglês. No exemplo abaixo, temos as cabines de espanhol, alemão, português e francês traduzindo para seus respectivos idiomas:

bola de ouro

Observe que nesse momento o intérprete de inglês não está trabalhando. Seu microfone está, portanto, desligado porque não há necessidade de se traduzir inglês para inglês.

Vamos à situação 2, em que o orador fala alemão, o que ocorreu diversas vezes no Bola de Ouro 2014. Algumas coisas importantes começam a acontecer. Observe a figura e tente descobrir o que está acontecendo antes de ler a explicação abaixo.

bola de ouro

No exemplo da figura acima, os intérpretes de francês, espanhol e português não entendem alemão. Dependem, portanto, da tradução de alemão > inglês do intérprete de inglês, nesse caso, o único da equipe que entende alemão. A partir da tradução para inglês, os três traduzem para seus respectivos idiomas. No jargão dos intérpretes, as cabines de francês, espanhol e português estão “penduradas” na de inglês.

É importante observar que, nessas situações, se o trabalho fica bom, o mérito é da equipe inteira. Se, por outro lado, der ruído na linha, ou seja, alguém pisar na bola, não é possível sabermos ao certo em que ponto do processo aconteceu o problema. Para se fazer uma análise, é preciso cotejar original, tradução 1 e tradução 2.

Mais complicação

Acha que está ficando complicado? Tenha calma porque ainda tem mais.

Nos eventos em auditório, sem transmissão ao vivo para dezenas de países, todos os intérpretes estão, em geral, em cabines dispostas lado a lado no fundo da sala. Vemos, na maioria das vezes, os colegas trabalhando através de vidros nas laterais das cabines. Qualquer descuido na hora de se apertar um botão para fazermos esse complexo chaveamento de canais de áudio é prontamente corrigido por um gesto de um dos intérpretes ou então pela rápida ação dos técnicos de áudio que monitoram atentamente os equipamentos. Eles são, em realidade, os verdadeiros anjos da guarda dos intérpretes.

Muito bem, imagine a complexidade de se montar uma estrutura assim envolvendo uma equipe de intérpretes enorme em Zurique (não sei precisar para quantos idiomas o evento foi traduzido no próprio auditório) mais uma quantidade ainda maior de intérpretes espalhados pelo mundo afora. Das cabines de tradução simultânea na Suíça, o som era transmitido pela geradora do vídeo e áudio, provavelmente a TV FIFA, e depois para centenas de emissoras de TV, dentre elas a ESPN no Brasil. Esse áudio era, por sua vez, repassado para os meus fones pelos técnicos de áudio da própria ESPN.

Acho que já está dando para perceber que um atraso de dois segundos na hora de apertar um botão já era o bastante para eu perder um pedaço da pergunta, da resposta ou de um agradecimento. Para quem não assistiu ao Bola de Ouro ontem, inglês, francês, alemão, espanhol e português foram idiomas falados durante a transmissão. A troca entre eles acontecia o tempo todo.

O que aconteceu ontem

Em determinados momentos, algumas dessas situações aconteceram durante a transmissão da cerimônia de entrega do prêmio Bola de Ouro FIFA 2014.

  • Ouvi alemão, idioma que não entendo, ou seja, a tradução para inglês não chegava aos meus fones.
  • Ouvi o áudio da tradução para inglês quando o orador falava alemão, mas junto com o original em alemão.
  • Ouvi o áudio original em inglês, mas junto com a tradução para português feita pelo colega português, provavelmente do auditório em Zurique.
  • Ouvi o áudio da tradução para inglês quando os oradores falavam espanhol, idioma que entendo e do qual traduzo. Aqui cabe uma explicação: ouvir dois idiomas ao mesmo tempo, escolher um e traduzir para um terceiro já é loucura, mas fazer isso quando você entende as três línguas, nesse caso, ouvir inglês e espanhol e traduzir para português, é torturante.

Não dá para saber em que ponto desse emaranhando de fios e conexões aconteceram os problemas. Nem vem ao caso investigar agora essas causas. O relato desse texto tem apenas o propósito de esclarecer a telespectadores em geral e a futuros intérpretes o que pode acontecer nos bastidores de uma transmissão ao vivo com tradução simultânea, como a do prêmio Bola de Ouro da FIFA.

Graças à competência de toda a equipe técnica da ESPN e do excepcional jogo de cintura dos brilhantes Paulo Andrade e Everaldo Marques, que fizeram os comentários, grande parte desses percalços não foi ao ar. Assisti à reprise da transmissão à noite e fiquei surpreso com o excelente resultado final. Sinto muito orgulho de poder fazer parte de um time desses. Parabéns a todos da ESPN!

Se você chegou até o fim desse artigo é porque se interessa pelo assunto e, tenho certeza, também vai gostar das indicações de leitura a seguir. Espero que esse texto tenha de alguma forma aberto seus olhos para alguns aspectos inerentes à tradução simultânea.

Cf. Como ser tradutor e intérprete

Cf. Oscar, Tradução Simultânea e o Porta dos Fundos

Cf. Tradução Simultânea Profissional x Quebra-galho

Speak up! We’re listening…

Gostou do texto? Você assistiu à cerimônia de entrega do prêmio Bola de Ouro da FIFA 2014? O que você acha da tradução simultânea nessas premiações? Eu gostaria de saber se o que você leu no texto de alguma maneira foi útil para você formar uma opinião mais consciente. Escreva, por favor, comentário no rodapé da página. Muito obrigado pelo interesse no Tecla SAP.