Tradução SimultâneaTag Archive -

Simultânea no Palácio dos Bandeirantes

Ulisses Wehby de Carvalho

Esta semana, tive a oportunidade de mais uma vez fazer tradução simultânea no Palácio dos Bandeirantes, a sede do governo paulista. Foi uma solenidade que teve a duração de pouco mais de 30 minutos, no Salão de Despachos.

Eu estava um pouco apreensivo porque, diferentemente dos colegas que atuam em cidades como Brasília, Washington ou Bruxelas, os profissionais de São Paulo não trabalhamos com autoridades de governo com a mesma regularidade. Reuniões de negócio, congressos científicos, apresentações para empresários, treinamentos dos mais diversos tipos são, em geral, os eventos em que mais atuamos.

simul gov Simultânea no Palácio dos Bandeirantes

Como era uma reunião com a presença do governador, de alguns secretários estaduais, de representantes de duas empresas privadas, além de vários jornalistas, recorri a duas modalidades de interpretação. Quando os convidados estrangeiros falavam em inglês, eu fazia a interpretação consecutiva, ou seja, aquela modalidade em que orador fala por alguns minutos enquanto o/a intérprete toma notas, interrompe seu discurso e aguarda a tradução para o outro idioma. O processo se repete várias vezes e é extremamente maçante para todos os presentes porque qualquer pronunciamento acaba levando o dobro do tempo. Esta é, no entanto, uma solução prática para eventos de curtíssima duração.

No sentido inverso, o que era dito em português ao microfone era traduzido para inglês na modalidade conhecida como “interpretação simultânea de cochicho”. Essa solução só foi possível porque eram apenas dois os convidados que não falavam o nosso idioma. Eu fiquei sentado em uma cadeira logo atrás dos dois cidadãos americanos e fazia a tradução simultânea para inglês falando bem baixinho.

Aliás, essa foi a solução que adotei também na tradução do Mister M. no programa da Eliana. No post “Simultânea ou Consecutiva“, você vê as fotos desse trabalho e fica sabendo de mais algumas diferenças entre as duas modalidades mais comuns de tradução. Em “Tradução Simultânea de Cochicho“, falo sobre o trabalho com o diretor de cinema James Cameron e com a atriz Sigourney Weaver em que esta outra modalidade é empregada.

Como já disse no post “Simultânea do show do Marco Luque“, o dia-a-dia do intérprete de conferência não é só glamour. Os outros trabalhos recentes que fiz foram uma auditoria contábil, dois congressos sobre educação, o acompanhamento de visita de executivos a um banco brasileiro, entre outros eventos sem muita pompa.

E por falar em glamour, faltou mencionar mais um trabalho que fiz há poucos dias para o programa Legendários da TV Record. Fiz a tradução de Stevie Starr, o Regurgitador. Need I say more? icon wink Simultânea no Palácio dos Bandeirantes

Cf. Discurso de Barack Obama no Rio de Janeiro
Cf. Tradução Simultânea do Samurai Hayashi no Legendários

Simultânea do show do Marco Luque

Ulisses Wehby de Carvalho

São poucos os trabalhos de tradução simultânea que chamam a atenção do público. Na maioria das vezes, trabalhamos em reuniões de negócio, treinamentos, congressos científicos, fábricas, etc. Nada de muito espetacular ou atraente. Se traduzimos personalidades, no entanto, com transmissão pela TV ou não, a coisa muda de figura. Quando isso acontece, eu venho correndo contar para vocês. Foi o que fiz quando traduzi o Presidente Barack Obama, a atriz Sigourney Weaver e o Mister M (lembra dele?), entre outros.

marco luque Simultânea do show do Marco LuqueEssa semana, aconteceu de novo. Tive a oportunidade de traduzir um show do comediante Marco Luque. Ele encerrou um evento comemorativo de empresa privada. Como havia convidados estrangeiros, os intérpretes foram contratados para traduzir as apresentações que precederam a cerimônia de premiação e, é claro, o show de encerramento.

Como foi a minha primeira vez fazendo algo do gênero, confesso que estava um tanto apreensivo. Não há como se preparar para esse tipo de trabalho. Não há roteiro definido, não há glossário nem PowerPoint! A nosso favor, só o fato de ser uma celebração sem grandes responsabilidades, pois, afinal de contas, não se trata de um evento médico em que uma técnica cirúrgica é apresentada nem de reunião diplomática para negociar a paz entre dois países. As dificuldades, por outro lado, eram muitas. Seguem algumas delas  que o Milton Roth, o colega com quem dividi a cabine, e eu enfrentamos.

  • Velocidade – Os humoristas pensam e falam rápido. Até aí nada de muito diferente do dia-a-dia do intérprete.
  • Imprevisibilidade – A narrativa era evidentemente caótica, sem uma ordem linear lógica e previsível. A parte mais difícil para mim foi na hora em que ele falou uns 15 nomes de esmalte praticamente sem respirar.
  • Palavrões – O Marco Luque não fala muitos palavrões no palco, o que dificulta ainda mais o nosso trabalho. Traduzir palavrão é muito fácil; o difícil é traduzir meio palavrão, ou seja, uma intenção de dizer a palavra chula que acaba no emprego de um meio-termo cuja tradução é bem mais complicada. Por exemplo, (crianças saiam da sala!) traduzir “cu” não representa nenhuma dificuldade (asshole), o complicado é traduzir “fiofó”.
  • Sons – Apesar de não precisarmos reproduzir os sons de vídeo game, de música de danceteria, de latido de cachorro, da duchinha do vaso sanitário etc., não dá para traduzir imitando mulher, personagem de desenho animado e até o próprio cachorro!
  • Auto-controle – Não foi fácil conseguir segurar nosso próprio riso. É claro que já traduzi muitos relatos engraçados – e outros bem tristes também! – ao longo da carreira e que também exigiram auto-controle. Manter a compostura durante uma hora de stand-up comedy foi bem mais difícil.

Pude observar que os estrangeiros que acompanhavam nossa tradução estavam rindo e assistiram ao show até o fim. A cliente veio nos agradecer e elogiar porque também estava ouvindo nosso trabalho. Como costuma dizer meu pai: Entre mortos e feridos, salvaram-se todos! A experiência foi para mim muito gratificante.

Não se iluda, no entanto, porque a vida de intérprete não é só traduzir chefe-de-estado e celebridade. Os momentos de glamour e alegria param por aqui. Na semana que vem o trabalho é acompanhar uma auditoria. Quer que eu conte depois como foi? icon wink Simultânea do show do Marco Luque

Se você tiver alguma dúvida sobre esse ou outro tipo de trabalho de simultânea, por favor, envie sua pergunta na seção de comentários abaixo ou na página do Tecla SAP no Facebook. Obrigado.

Quanto devo cobrar para fazer simultânea? Detalhe: não sou intérprete!

Ulisses Wehby de Carvalho

Já escrevi vários textos sobre tradução simultânea aqui no Tecla SAP. Vários deles têm o intuito de desfazer a falsa impressão de que basta ser bilíngue para ser intérprete. Dentre eles, destaco “Tradução Simultânea não se aprende com dicas” e “Tradução Simultânea – Ano novo, carreira nova“.

Mas não tem jeito, vira e mexe aparece alguém com um pedido como este abaixo:

Preciso que me ajude urgentemente!!!!! Sou professora de inglês em uma cidade pequena, sou formada em Letras, mas nunca trabalhei como intérprete nem como tradutora. Uma empresa me convidou para recepcionar um grupo de americanos. Não tenho ideia de valores, será que pode me socorrer???

Recebi autorização do colega Walter Estella, intérprete de conferência profissional, para publicar no Tecla SAP a resposta padrão que ele dá a quem lhe faz perguntas semelhantes. Quando perguntam a ele quanto se deve cobrar para fazer simultânea, este é o diálogo que costuma acontecer:

- Olha, me pediram para fazer tradução simultânea em um evento, mas eu não tenho experiência. Quanto devo cobrar?

- Fez curso de interpretação?

- Não.

- Então não cobre nada!

- Como assim? Vou trabalhar de graça?

- É claro! Se você não é profissional e vai quebrar galho, o serviço tem que ser de graça.

Cf. Como se diz “quebrar o galho” em inglês?

A resposta pode até parecer um tanto áspera a princípio, mas perguntas dessa natureza são um insulto para quem é profissional. Elas, infelizmente, comprovam que até mesmo quem tem conhecimento de uma língua estrangeira, e por isso mesmo deveria ter um pouco mais de noção sobre a dificuldade de se fazer tradução simultânea, acaba se iludindo a ponto de achar que, sem preparo nenhum, pode desempenhar um serviço tão técnico.

acidente Quanto devo cobrar para fazer simultânea? Detalhe: não sou intérprete!

Cf. Como eu digo “se toca” em inglês?

Se você se interessa pela profissão, prepare-se e vá em frente! Não é assim com as outras profissões? Ou você entraria em um carro com um “motorista” de primeira viagem e ainda por cima sem habilitação? Por que seria diferente com a interpretação simultânea? Há cursos universitários em diversas capitais brasileiras e alguns profissionalizantes, em geral com dois anos de duração, como o Curso de Formação de Tradutores e Intérpretes, da Associação Alumni, em São Paulo.

Para conhecer um pouco mais sobre este mercado, clique na tag “tradução simultânea” e leia os, até agora, 46 textos sobre o assunto. Talvez essa não seja a resposta que a consulente estava esperando, mas ninguém pode dizer que eu não tentei ajudar!

Cf. Como arranjar trabalho (de tradução simultânea)?
Cf. Sabe inglês? Vire intérprete…
Cf. Tradução Simultânea Profissional x Quebra-galho
Cf. Indicações profissionais: Panelinha ou bom senso?

Tradução Simultânea não se aprende com dicas

Ulisses Wehby de Carvalho

Aconteceu de novo! Recebi hoje mais um e-mail com um pedido relativamente comum. A mensagem começa com um elogio, que antecede o pedido, mais ou menos assim:

…recebi convite para fazer tradução simultânea em um evento na semana que vem. Como nunca fiz isso antes, você poderia me dar algumas dicas?

O que é mais surpreendente nesses pedidos é o fato de eles virem de pessoas que têm, supostamente, conhecimento linguístico diferenciado. Podem ser professores de inglês, alunos ou professores de cursos de Letras, secretárias bilíngues etc. Até admito que os leigos possam acreditar que basta saber dois idiomas para uma pessoa se tornar intérprete, mas não esperaria essa atitude de profissionais de áreas afins.

CfTradução Simultânea – Ano novo, carreira nova

Nunca é demais repetir, portanto, que dominar dois idiomas é apenas pré-requisito para se tornar intérprete de conferência. Observe que escolhi o verbo “dominar” de propósito. “Dominar” é mais do que “saber”, “manjar”, “ser fera”, “ser fluente” etc.

Façamos uma analogia simples para facilitar as coisas. Para dirigir um automóvel, precisamos ter dois braços, duas pernas, boa visão etc., mas tem que fazer o curso na auto-escola também, ou não? Se nem todo mundo que tem dois braços e duas pernas “vira” motorista, por que alguns bilíngues acham que podem ser intérpretes só com algumas dicas? Onde entra o curso?

car crash Tradução Simultânea não se aprende com dicas

Acreditar que vai fazer tradução simultânea só porque se interessa pela área é de uma ingenuidade ímpar. Pensar que vai aprender com algumas dicas por e-mail é ainda mais impressionante.

CfTradução Simultânea Profissional x Quebra-galho
CfPseudo-Tradução Simultânea? O que é isso?

O que fazer então se você acha que leva jeito? Tirem as crianças da sala porque a resposta pode chocar os mais sensíveis: já pensou em fazer um curso, *%$&*^#%??? A desculpa de que não há curso em sua cidade não serve. Sabemos muito bem que não é qualquer cidade brasileira que tem cursos de arquitetura, mecatrônica, veterinária ou linguística, por exemplo.

Quanto ao evento da semana que vem, já pensou em contratar um(a) intérprete profissional? Tenho certeza de que ele/a poderá dar várias dicas e recomendar um bom curso de formação.

CfArtigo: Sabe inglês? Vire intérprete…
CfArtigo: Como arranjar trabalho (de tradução simultânea)?

Tradução Simultânea do Samurai Hayashi no Legendários

Ulisses Wehby de Carvalho

Neste sábado, dia 11 de junho de 2011, fiz um trabalho pouco comum para um intérprete de conferência. Como você deve supor, os eventos com tradução simultânea são, em sua maioria, de caráter mais formal, como o Discurso de Barack Obama no Rio de Janeiro ou como este outro evento descrito no post Tradução Simultânea e a Segurança. Além disso, na grande maioria das vezes, traduzimos pessoas anônimas, mas há exceções, como esta coletiva de imprensa com o diretor de cinema James Cameron.

Há também, é claro, eventos mais descontraídos, como o do vídeo abaixo, em que o Samurai Hayashi se apresenta ao vivo no programa Legendários da TV Record. Fiz a tradução de todos os ensaios durante dois dias, mas na hora da transmissão ao vivo, fiz apenas a tradução de um pequeno trecho em voice over.

Vale lembrar que, nos trabalhos de tradução simultânea na televisão, são raras as ocasiões em que os intérpretes aparecem no vídeo, como neste programa com o Mister M. Se você se interessa pelo assunto, não deixe de ler os textos do Tecla SAP marcados com a tag tradução simultânea. Descubra, com a leitura atenta dos textos, que nossa realidade é bem diferente daquela que se vê em poucos minutos na televisão.

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