Choque cultural: por que não li este texto antes de viajar?

Tempo de leitura: 8 minutos

Choque cultural by Adriana Pereira Santos

CHOQUE CULTURAL

choque cultural

Culture shock ou ainda “O inglês da escola não serve pra nada!”

Viajar para outros países é uma das maneiras mais eficientes de se aprender inglês ou qualquer outro idioma, seja através de programas de intercâmbio, como turista ou a trabalho. No entanto, o sonho da temporada no exterior pode rapidamente se transformar num pesadelo. O entusiasmo e encantamento inicial vão, aos poucos, se transformando em estranhamento, frustração, sensação de impotência, chegando mesmo ao ponto do viajante ansiar pela volta imediata para casa. E o que é pior, muitas vezes, parece que tantos anos de estudo de inglês não serviram para nada! Você não consegue se comunicar de verdade! A isso chamamos de choque cultural. Com raras exceções, as escolas de inglês não preparam os alunos para encarar o problema.

choque cultural

O que é choque cultural?

O dicionário Merriam-Webster define choque cultural como “a sense of confusion and uncertainty sometimes with feelings of anxiety that may affect people exposed to an alien culture or environment without adequate preparation” [uma sensação de confusão e incerteza, às vezes com sentimentos de ansiedade, que podem afetar pessoas expostas a uma cultura ou ambiente alheios, sem uma preparação adequada]. Temos, nesta definição, três elementos que a caracterizam:

a) Por que o choque cultural acontece?

Ao entrar num ambiente culturalmente novo, você se depara com novos códigos de conduta, e isso inclui o uso da linguagem. Conhecer as palavras de um idioma ou até mesmo ser capaz de manter uma conversação não dão uma garantia de comunicação eficiente. Vou citar um exemplo: um colega de trabalho, turco, já havia aprendido o suficiente de português para falar sem muitos embaraços. Um dia, ele precisou fazer uma ligação para a esposa, mas havia esquecido o celular. Ele, então, se dirigiu a uma das secretárias: “Preciso telefonar para a minha esposa.” A secretária, que estava no meio de uma tarefa, ergueu os olhos. Ele continuou: “Agora!”. Mais tarde, a secretária comentou comigo como ele havia sido grosseiro e mandão. Expliquei que, na verdade, ele ainda não havia aprendido os padrões de comportamento linguístico, ou seja, a pedir “com jeitinho”. Rimos muito, meses depois, quando ele pediu assim: “Posso dar uma ligadinha pra minha mulher? Na moral, é rapidinho!”

b) Como o indivíduo se sente?

Existem relatos das mais diversas sensações, quase todas ruins! Por se encontrar desprovido de referenciais do que é adequado ou não, a sensação é que você está de pijamas numa festa black-tie! São comuns os relatos de queda na auto-estima, raiva, irritação, solidão, desconforto, saudade excessiva de casa, interpretação errônea do que os outros dizem ou fazem, estresse, insônia, medo e desconfiança excessivos, aversão à interação social, chegando ao extremo de se recusar a aprender o novo idioma. Há relatos, inclusive, de quadros de depressão por conta dos efeitos causados pelo choque cultural.

Choque cultural

Cf. O que “DOWN AND OUT” quer dizer?

c) Como ele passa a perceber o ambiente?

O indivíduo que está passando por um choque cultural tende a se sentir seguro apenas em ambientes familiares, se houver (por exemplo, um apartamento dividido por brasileiros). Pode encarar situações corriqueiras como hostilizações contra ele. Também é frequente que ele crie uma série de aversões: incapacidade de gostar da comida, da música, do clima, dos hábitos sociais… A linguagem é o ponto mais afetado, pois é a partir dela que todas as outras interações acontecem.

O que pode causar o choque cultural?

O idioma é o principal causador do choque cultural, especialmente se você tem aquele amigo que sempre quebra o seu galho e faz o papel de intérprete. Além do mais, pode ser que tenhamos a falsa impressão de já conhecermos a fundo a cultura do país de destino, mas, por mais que vejamos filmes e noticiários ou que leiamos a respeito em livros e na internet, o convívio se revela muito mais amplo e rico em detalhes! Como a linguagem é a primeira forma de interação entre você e os seus anfitriões, é por aí que o choque cultural se instala.

Além de lidar com a barreira do idioma, os estereótipos contribuem para este choque. Nem todo argentino dança tango, nem todo italiano fala alto, nem todo francês é bom cozinheiro, nem todo alemão bebe cerveja. Nós, brasileiros, também somos muito estereotipados. Vários estrangeiros já me fizeram perguntas sobre samba, futebol, novela… E nem sempre tenho o conhecimento (ou interesse) necessário para discorrer sobre esses assuntos!

choque cultural

Como minimizar o choque cultural?

A própria definição de choque cultural nos dá uma indicação de como lidar com o problema:

  • use expressões básicas da língua-alvo: bom dia, obrigado, por favor etc. Não leva muito tempo para aprendê-las, e quase todas as pessoas têm uma reação simpática ao ouvir um estrangeiro se esforçando para falar o idioma local!
  • aprenda sobre a cultura local antes de viajar. Conheça um pouco da história, religião, culinária, política, hábitos etc. Isso vai te ajudar a manter uma conversação. Uma amiga minha, natural da Lituânia e morando no Brasil já há dois anos, não fazia a mínima ideia de quem era Pelé! A partir daí, falamos em Santos Dumont, Machado de Assis, Castro Alves, Tiradentes, Tom Jobim, Ayrton Senna, Niemeyer, Carmen Miranda (que, aliás, era portuguesa!)…
  • um guia ou manual de conversação ajuda muito! Vá estudando aos poucos, e logo você será capaz de falar as frases mais comuns sem grandes dificuldades.
  • aprenda sobre comportamentos. Uma palavra que é comum num local pode ser rude em outro, mesmo que o mesmo idioma seja falado nos dois! Aprenda a responder a convites e ofertas, o que se diz depois de uma refeição, como fazer elogios, como interagir em níveis hierárquicos… Ou seja, não são apenas as palavras. É como se diz!
  • mantenha uma postura receptiva! Seja otimista! Sempre incentivei os meus alunos a dizerem “Que legal! Aprendi mais uma palavra para dizer isso!” em vez de “Que saco! Pra que tantas palavras diferentes pra dizer a mesma coisa?”
  • tenha em mente que, até certo ponto, os habitantes locais também sofrem um choque cultural quando interagem com você!
  • last but not least, um sorriso é universal!

Não esqueça!

O choque cultural varia em duração e intensidade de um indivíduo para outro. Com uma postura positiva, você tornará sua viagem uma experiência inesquecível! Não se deixe abater pelo primeiro obstáculo – aprendemos um idioma aos poucos, dia a dia. Quanto mais contato, melhor! Esteja aberto às diferenças e evite rotular as coisas como piores ou melhores do que no seu país. Não há vergonha em seguir o seu próprio ritmo para se adaptar à nova realidade – mal-entendidos são inevitáveis, mas podemos escolher encará-los com bom humor! Do contrário, seria melhor ficarmos no conforto da nossa casa, em frente à TV, sem falar com ninguém!


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Cf. Autonomia não é só para autodidatas

Cf. Aprender inglês no exterior? Como se preparar?

Cf. As palavras em inglês que você não precisa aprender

Cf. Como melhorar o listening? A dica que você nunca ouviu…

Speak up! We’re listening…

Você já passou por experiência semelhante? Conte-nos a sua história! Talvez outras pessoas que estejam vivenciando a mesma situação neste momento encontrem inspiração para adotar uma postura mais otimista! Se não quiser relatar seu choque cultural, clique no ícone da rede social de sua preferência e compartilhe este texto. Tenho certeza de que as dicas serão úteis para vários de seus amigos. Muito obrigada!

Referência

Top 100 – As cem melhores dicas do Tecla SAP, de Ulisses Wehby de Carvalho, ©Tecla SAP, 2014.

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Dani Meneghello
Dani Meneghello
4 anos atrás

Ótimo texto! Agora entendi o que estou passando,estava muito confusa. Estou fazendo intercâmbio nos Eua, faz um mês q to aqui, e a adaptação não é fácil, é uma prova de fogo…tm hora que eu penso,” caramba só faço merda” mas na verdade só estou perdida mesmo..kkk

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[…] importância de desenvolver estratégias para sair de saias justas dessa natureza. O texto “Choque cultural: por que não li este texto antes de viajar?” trata do tema com maior profundidade e oferece várias […]

Ulisses Wehby de Carvalho
Ulisses Wehby de Carvalho
6 anos atrás

Márcia, tudo bem?

Muito obrigado pelo feedback e pelos elogios ao Tecla SAP. Agradeço em nome de toda a equipe.

Abraços

Tania Mountian
Tania Mountian
6 anos atrás

Excelente artigo!!

Ulisses Wehby de Carvalho
Ulisses Wehby de Carvalho
6 anos atrás
Reply to  Tania Mountian

Tânia, tudo bom?

Obrigado pelo feedback. Volte mais vezes.

Abraços

Ana Cybele
Ana Cybele
6 anos atrás

Ótimo texto! ajudou a diminuir o medo de parecer meio sem noção em diversas situações! rsrsrsrs

Ulisses Wehby de Carvalho
Ulisses Wehby de Carvalho
6 anos atrás
Reply to  Ana Cybele

Ana Cybele, tudo bem?

Muito obrigado pela visita e pelas palavras simpáticas. Volte mais vezes!

Abraços

Laís Batista
Laís Batista
6 anos atrás

Amei o texto. Muito obrigada!!

Ulisses Wehby de Carvalho
Ulisses Wehby de Carvalho
6 anos atrás
Reply to  Laís Batista

Laís, tudo bem?

Amei o comentário. Volte sempre!

Abraços

Juliana Leal Pereira
Juliana Leal Pereira
7 anos atrás

Muito bom! Thank you!

Ulisses Wehby de Carvalho
Ulisses Wehby de Carvalho
7 anos atrás

Juliana, tudo bem?

Obrigado pela visita e pelas palavras simpáticas.

Abraços

Marcia
Marcia
7 anos atrás

Adorei o texto, pois fez-me recordar da 1ª vez que saí do Brasil; eu e meu marido viajamos para os EUA (Nova York). Ele, inglês 0, e eu aqueles exemplos de mais de 20 anos de cursinhos daqui e dali, sabe? Poi bem, fomos por nossa conta própria, ou seja, reservamos hotel pela internet, compramos as passagens, comprei alguns “abençoados” manuais de conversação em viagens e lá fomos nós!! O meu maior medo era passar pela imigração e falar algo inapropriado (rsss), mas tudo correu bem! E quando vimos já estávamos saindo do aeroporto com um gentil “Welcome to the United States!”. Caramba que felicidade!!! Chegamos, passeamos, estudamos o mapa de Manhattan, pegamos metrô de lá pra cá, daqui pra lá. Às vezes não entendia bem alguma coisa, mas quer saber? Dava um sorriso simpático,um “embromation” e ficava tudo bem! Até meu marido que não fala nada em inglês foi à farmácia Duane, comprou e até reclamou de um preço que ele achou que estava errado na gôndola! Ahhh, e a maior delas: neste mesmo dia na farmácia ele havia levado dinheiro que ele achou ser suficiente, mas tinha esquecido da taxa dos produtos e quando chegou no caixa ficou faltando uns cents lá e, por mímica, ele explicou que não tinha o dinheiro, mandando concomitante à mímica um “sorry” e a atendente disse: No problem sir, I pay! Fantástico!!! rsss…Bem, É isso, pessoal queria deixar um pouquinho da minha experiência e dizer que não é nenhum bicho de sete cabeças não ter o domínio total do inglês em terras americanas. E quero deixar aqui o meu agradecimento ao tecla SAP que tem me ajudado muito! Mais do que os meus 20 anos de cursinhos…rss.

Ulisses Wehby de Carvalho
Ulisses Wehby de Carvalho
7 anos atrás
Reply to  Marcia

Márcia, tudo bem?

Obrigado pelo depoimento e pelas palavras simpáticas sobre o Tecla SAP. Volte mais vezes e comente sempre que puder.

Abraços

Marcia
Marcia
7 anos atrás

😉 Definitely!!!

Renato Bulhões
Renato Bulhões
7 anos atrás

Excelente seu artigo ! Bem, minha história não seria o que idealmente se esperaria de um intercâmbio. Trabalhei em Londres clandestinamente pouco mais de uma década atrás mas vou focalizar o prisma do aprendizado do idioma e o que vi por lá. Notei que pessoas envolvidas com teatro desenvolviam a fluência em muito menor tempo, e assim como as que moravam afastadas por algum motivo de seus conterrâneos: imersão no idioma. Por sinal o sotaque que mais achava agradável de ouvir era do norte-nordeste da Inglaterra. Com o tempo você passa a sentir também a diferença de sotaques e de onde é o falante, principalmente se estrangeiro. Minha teoria é que esse “banzo” ou choque cultural possa ser alguma forma de proteção do cérebro a ter de aprender uma nova linguagem, uma resistência dissimulada à imersão em um novo idioma e com todo o mundo novo que advém com a nova língua. Explico: sou praticante de mergulho em apnéia desde a infância e notei que o fôlego se consegue com o treino não é somente advindo com o ganho de aumento do hematócrito sanguíneo somente, quero dizer que, principalmente, trata-se de ganhar a confiança do cérebro, aí ele nos deixa cada vez irmos mais fundo, o cérebro diz: “Bem, se esse camarada sempre volta do fundo (“do choque cultural”) e não me estressar eu vou dando um pouquinho mais de corda a ele” (=mais fôlego); e com os novos idiomas é semelhante. Passei por muitas dificuldades lá mas sempre mantive-me sereno: nos primeiros dias só tinha dinheiro para comer um sanduíche por dia e para três pernoites. No terceiro dia, já estava sem grana para nada. Bem passei fome, dormi no metrô mas, em três meses já havia avançado mais que muitos brasileiros que lá estavam tempos. Engraçado, provavelmente eu fui “obrigado” pelas contingências a digerir meu banzo, meu choque cultural, porém os outros brasileiros que conheci depois mas que lá estavam por intercâmbio – no sentido estrito, deixavam que o tal choque os dominassem e, de fato, vi vários voltarem por desistência. Minha dica, envolva-se na lida, trabalhe bastante (e o fazia por 10h diárias) e conviva o máximo que puder com os ingleses (no meu caso), acho que assim você ganha a confiança de seu cérebro e o impacto da novidade e diferenças culturais logo cede e se desfaz, e daí o idioma flui, como um novo fôlego. Também, nunca pare de estudar gramática, por lá, conheci pessoas que falavam e entendiam rápido mas cometiam atrocidades no inglês. Uma vez um estrangeiro do qual não citarei a nacionalidade e, que lá estava por anos mostrou-me uma pintura no teto de sua casa feita por um artista plástico inglês, que também conheci, e estava escrito em inglês em meio à pintura para que ele não fizesse sexo como um animal, se não me engano: “Do not make sex like a animal”, mas o camarada, ao me mostrar orgulhosamente a pintura feita para ele dizendo que tinha aprendido essa lição advinda do amigo artista, para mim ele repetiu para que também eu aprendesse: “Não faça sexo com pessoas que gostam de animais.”

Adriana Pereira Santos
6 anos atrás

Renato, tenho certeza que muitas pessoas vão se identificar com o seu relato. Obrigada pela participação! Abraços.

Ana Cybele
Ana Cybele
6 anos atrás

Interessante!! obrigada por compartilhar!

Douglas Fernandes
Douglas Fernandes
7 anos atrás

Excelente!! O aprendizado de um novo idioma requer do indivíduo a abertura para tudo que é novo e diferente. E o contato com o idioma 24 horas por dia é imprescindível para aprender de verdade. Eu estudo inglês sozinho, tento pensar em inglês, configurei meu computador e celular para o idioma inglês, ouço músicas e assisto filmes em inglês. Enfim, o idioma que se quer aprender deve ser presença constante na nossa vida. E é errando que se aprende. Uma coisa engraçada que aconteceu comigo foi que no restaurante onde trabalho, onde sou garçom, tentei conversar com um casal alemão (que falavam inglês) e a mulher deu uma risadinha discreta. O motivo: Troquei o verbo want por have. Ao invés de perguntar o que queriam, acabei perguntando o que teriam.

Ulisses Wehby de Carvalho
Ulisses Wehby de Carvalho
7 anos atrás

Douglas, tudo bem?

Obrigado pela visita e pelo comentário. Com base no seu relato, dá para perceber que você está no caminho certo para alcançar seus objetivos na língua inglesa. Boa sorte na caminhada.

Abraços

Claudia
Claudia
7 anos atrás

Excelente texto, ótimas dicas.

Adriana Pereira Santos
6 anos atrás
Reply to  Claudia

Cláudia, obrigada pelo comentário! Ficamos felizes que você tenha gostado. Abraços.

katiana
katiana
7 anos atrás

Ótimo texto! Estou me preparando para passar um mês na Nova Zelândia num intercambio, pretendo, como fiz em outra oportunidade nao levar tao a serio os erros cometidos! E achar prazerosa a experiencia de aprender coisas novas!

Adriana Pereira Santos
7 anos atrás
Reply to  katiana

É isso aí, Katiana! O mais importante é estarmos abertos às novas experiências e crescermos com elas. Abraços e boa sorte!